Monday, May 07, 2007

Batismo de Sangue

Recomendo o filme, apesar de repisar tema recorrente do cinema brasileiro.
Num tempo em que o sentimento de insegurança domina as mentes e os corações, reavivando aspirações antidemocráticas e dando força a vozes autoritárias e anti-liberais, a história de Frei Tito merece ser conhecida.
A ditadura militar no Brasil, ao invés de promover a liberdade, acabou por suprimi-la.
Agentes da repressão aos movimentos de oposição e resistência lançaram mão da tortura e do assassinato.
Ao contrário do que se passou no Brasil, no início dos anos 70, militares portugueses, fiéis ao direito de liberdade do povo, promoveram a Revolução dos Cravos.
Como terminei o segundo grau em 1986, portanto antes da Constituição de 1988, nas escolas, nem uma palavra sobre a Revolução dos Cravos. Estudávamos Literatura Portuguesa, das cantigas medievais até os primeiros modernistas, mas, em História Geral, nada de Revolução dos Cravos. O fato histórico era apenas mencionado, quando era, sem nenhum aprofundamento.
Conheci o episódio quando assisti a um filme de Maria de Medeiros, há anos atrás. Infelizmente, não me lembro do nome do filme, que achei ótimo!
É com pesar que vejo, hoje, o Poder Legislativo aprovando o uso de pulseiras por condenados, dentre outras medidas. Logo, vão querer que qualquer suspeito de qualquer atitude que, embora não criminosa, seja "anti-social", "inconveniente", "anormal", "imoral", "subversiva", use as tais pulseiras! Como dizia Brecht, um dia, estragam nosso jardim e não falamos nada; noutro dia, matam o nosso cão, e daí por diante.
O autoritarismo ganha força, inclusive a níveis regionais e locais, com a edição de leis que suprimem expressões da liberdade de manifestação do pensamento do cidadão, de criação, de exposição de idéias de qualquer natureza, por puro capricho dos governantes, apoiados por elites caprichosas, mimadas, intolerantes e que querem mais é que as demais pessoas se lasquem, percam a voz, os direitos, os empregos, os bens.
Por isso, indispensável é conhecermos e lembrarmo-nos, sempre, do que o autoritarismo é capaz: de espancar, matar, enlouquecer, destruir pessoas e famílias, e, na melhor das hipóteses, promover "apenas" a infelicidade do povo.
E, segundo a Declaração de Direitos do Bom Povo da Virgínia, de 1776, base da Constituição Norte-Americana e fonte de inspiração, também, de todas as constituições democráticas brasleiras, todos têm direito ao gozo da vida e da liberdade com os meios de adquieir e de possuir a propriedade e de buscar e obter felicidade e segurança.
Um governo que infelicita seu povo é, destarte, ilegítimo e desumano, jamais aceitável.
Pensemos nisso.

Monday, March 19, 2007

Literatura para Moças

Vira-e-mexe, ouço a infeliz expressão, utilizada a fim de desmerecer o trabalho e/ou seu autor.
Porém, toda boa literatura é ou foi "literatura para moças".
Como Machado de Assis ficou famoso? Só sendo lido por homens? Oh, não! As mulheres letradas do séc. XIX, como não participavam da vida pública, eram ávidas consumidoras de literatura. E Machado retratava a vida como ela era, o que podia ser encantador e libertador. Afinal, era um alívio, para as mulheres, verem que, se cometiam adultério, não tinham que se atirar sob um trem por conta disso, como uma Anna Karenina. Lobo Neves, o "ministro" da ambiciosa Virgília, nunca descobriu que ela pulava a cerca com o Brás Cubas das Memórias Póstumas... Bentinho desconfiou, mas nunca teve certeza dos chifres que lhe pôs Capitu. Drástico, separou-se dela. Que moça esperta não gostava de um escritor assim? (Vou reler todos os livros do Machado e inspirar-me em suas "heroínas" a fim de dar nó na cabeça dos homens!)
Freqüentemente, tacham de "literatura para moças" os romances que falam de amor e de paixão. Porém, se isso for um demérito, então, os homens são incapazes de amar e devemos todas nos tornarmos lésbicas...
Yeats é "literatura para moças"? Tolstói? Stefan Zweig? Stendhal? Todos eles, em um ou alguns de seus livros, escreveram sobre grandes amores.
Já ouvi dizerem que "O Morro dos Ventos Uivantes" é "literatura para moças", só porque foi escrito por mulher e conta a saga de um grande amor... Mas a Brontë é reeditada, sua história teve três versões cinematográficas e ainda há quem duvide de seu talento. Muito bem. Li o livro no original inglês e tenho a dizer o seguinte:
A história foge ao padrão do "baixo romantismo" das novelinhas de televisão, das personagens lineares e da nítida divisão entre os "bons" e os "maus". Além de contar a saga de um grande amor, Emily Brontë nos fala de inveja, ciúme, ódio, revolta, força de vontade, vingança e do que um grande buraco, uma ferida na alma, é capaz de fazer. O casal protagonista não é "santo"; ambos têm múltiplas características de personalidade, pois são capazes de amar, de odiar, de fazer o bem e o mal. O rival de Heathcliff não é um vilão. E Brontë nos traz um precioso retrato da Inglaterra rural daqueles idos, documentando inclusive uma fala regional através do personagem Joseph. Quem nos narra a história, ademais, são duas personagens diferentes, ambas secundárias.
E ainda dizem que isso é "literatura para moças"...

Friday, March 09, 2007

Valentina Tereshkova, 70 anos

Simone Andréa Especial Oito de Março
Não é de hoje que eu quero homenageá-la; desde 2000 ou 2001, quando a Revista "IstoÉ" lançou uma tiragem especial, com as 100 mulheres (supostamente) mais importantes do século XX, reunindo breves biografias de grandes estrangeiras e brasileiras. A publicação, que guardo, deleitou-me: falava desde Amelia Earhart a Nádia Comaneci, Margareth Thatcher a Jacqueline Kennedy Onassis. Porém, uma omissão imperdoável: num tempo em que poucas mulheres viajavam sozinhas pelo mundo, uma mulher ousou viajar sozinha para fora dele. Ela mesma, Valentina Tereshkova, nascida em 6 de março de 1937, na então União Soviética.
Segundo um livro que tenho (100 Mulheres Que Mudaram a História do Mundo, de Gail Meyer Rolka, Prestígio Editorial), Valentina trabalhava com sua irmã e sua mãe num engenho de algodão. Em 1959, começou a saltar de pára-quedas; em 1961, inspirada pelo vôo pioneiro de Yuri Gagarin, Tereshkova escreveu ao governo se oferecendo como voluntária para o programa espacial, tendo sido lançada na Vostok (Leste, em russo) VI em 16 de junho de 1963. Valentina recebeu, do Presidente Nikita Kruschev, a Ordem de Lênin, a Medalha da Estrela de Ouro, foi nomeada Heroína da União Soviética e continuou sua carreira como engenheira aeroespacial.
Por sua coragem e vida extraordinárias, mais do que da URSS, Valentina Tereshkova é uma Heroína da Humanidade.
E, anteontem, nossa heroína completou 70 anos.
Feliz aniversário, Valentina! Dobryi dien razhdiénie!
Ah se todas fossem iguais a você!

Wednesday, February 14, 2007

Abaixo o Machismo do Jabor

Recebi por e-mail um texto do Arnaldo Jabor, que critica o destaque dado pela mídia a mulheres bonitas, ricas e famosas, como Adriane Galisteu, e não a outras, como uma médica alagoana que ele menciona.
Uma leitura superficial do texto do Jabor pode levar as pessoas a embarcarem no que ele diz.
Ele não se conforme com o que chama de "insensibilidade" e de "egoísmo" da Adriane Galisteu, só porque, numa entrevista dada à "Veja" há anos atrás, ela admite que gosta de dinheiro, não faz filantropia e confia mais nos bichos do que nas pessoas.
O Jabor zomba, como se "fizesse pouco" do fato de Galisteu ter perdido o pai aos 15 anos e ter sido pobre. Ele compara a apresentadora, implacavelmente, à tal médica alagoana, que foi criada num orfanato, quis ser médica, conseguiu e ainda estudou em Londres.
Acaso todo ser humano tem a obrigação de querer ser médico, dentista, advogado, ter profissão tradicional e "respeitável"?
Quantos médicos já não apareceram na mídia como criminosos?
Acaso ser uma celebridade midiática torna uma pessoa, necessariamente, "pior" do que um médico, advogado, etc.?
Quem é o Jabor para falar mal da Galisteu, se ele também é uma personalidade midiática, tanto quanto ela? Para quem não se lembra, esse senhor é um ex-cineasta que não filma, salvo engano, desde o fim da Embrafilme, ganhou notoriedade como comentarista do "Jornal Nacional" (elogiando o FHC) e, de uns tempos para cá, resolveu escrever livros. Se encontra quem o publique e compre seus livros, é porque é celebridade.
Se a Adriane Galisteu coloca-se a si mesma em primeiro lugar, ela está no exercício regular de seus direitos, porque ninguém é obrigado a fazer filantropia, a confiar em todo mundo e muito menos a desdenhar o dinheiro.
Se ela trabalha, paga seus impostos e compromissos em dia, o Jabor, e qualquer pessoa, que a deixem em paz. Aliás, ele que trate de não se meter com mulheres que trabalham, ganham seu dinheiro, honram seus compromissos e vá cuidar de sua vida!
Ao opor a Galisteu à tal médica, o Jabor, como típico machista, divide as mulheres em "santas" e "diabas".
As "santas são altruístas, não assumem que gostam de dinheiro, não querem reconhecimento. Já as "diabas" são individualistas, ambiciosas e competitivas. Se forem prósperas, então, aí, nem se fala!
Que "crime" e que "pecado" há em querermos ganhar dinheiro e recursarmo-nos a trabalhar de graça?
Trabalho remunerado é direito fundamental! Porém, para o Jabor, certamente as mulheres nasceram para trabalhar de graça, como no pré-Feminismo, servindo a todos com um sorriso no rosto. Por isso, 70 por cento dos pobres do mundo são mulheres, que não possuem mais do que 1 por cento das terras do globo (dados da ONU). Por quê? Porque, durante anos, não tiveram direitos privados, nem ao trabalho remunerado. Enfim, mal conqusitamos nosso direito ao trabalho e ao dinheiro, aparece um sujeito exortando as mulheres serem "boazinhas" e a dar o que ganham para os outros! É o fim!
Se a mulher não for um poço de virtudes cristãs ou politicamente corretas, recebe, a ferro, a marca de má.
E tem mais. O Jabor conta que a tal médica maravilhosa foi convidada para trabalhar em Houston, mas uma gravidez a surpreendeu. Ele revela: "Pediu 24 horas para pensar e optou pelo filho". Claro. Ele insinua, aqui, que "optar pelo filho", colocar o filho acima de si mesma, é mais uma virtude feminina. Afinal, as mulheres sempre foram cobradas a fazerem isso, colocar os filhos acima de si mesmas inclusive. E o Jabor quer nos enfiar, goela abaixo, essa lição de moralismo chauvinista e retrógrado. Ele não se conforma de Galisteu ter dito, "adoro dinheiro e detesto hipocrisia" e ter revelado que o que ela ganha, não doa.
E quem não gosta de dinheiro? Quem tem obrigação de dar o próprio dinheiro aos outros, fazer filantropia? Ninguém.
A ditadura da filantropia e do voluntariado servem bem ao Neoliberalismo que desmonta o Estado e acaba com políticas compensatórias. O Estado cobra impostos, não oferece serviços decentes e ainda cobra filantropia e voluntariado do povo...
Oh, sim, a médica-heroína tem projeto filantrópico para as criancinhas.
Nada contra a doutora eu tenho. Se for verdade o que o Jabor conta sobre ela, merece respeito. Porém, NÃO ACEITO que qualquer machista metido a pregador de virtudes para moças atreva-se a lançar críticas destrutivas contra uma mulher, apenas porque ela, sendo bonita e famosa, é individualista, trabalha, ganha honestamente o seu dinheiro e amealha bens.
Para o Jabor, certamente os homens podem fazer, sem culpas, tudo o que a Galisteu faz e o incomoda. Afinal, eles sempre se deram aoluxo de serem ambiciosos, individualistas, não trabalharem de graça, acumularem bens, estarem na mídia e serem respeitados. Ele "detona" a Galisteu, agora eu pergundo: por que não aparece ninguém para fazer o mesmo com ele, comparando-o a algum médico, educador, "bonzinho" que não esteja na mídia?
Talvez porque, na nossa sociedade machista, o moralismo canhestro determina que somente a mulher, e não o homem, tem um compromisso com a virtude.
Interessante que ratinhos, leões, hucks, maurys e chiquinhos não sejam exortados a serem bonzinhos...

Tuesday, February 06, 2007

Tabatinga Mon Amour

Durante a semana que passou, nem cogitei ir à praia ano cabo da semana. Ou eu ficaria em São Paulo, ou iria para o interior visitar a família. Porém, o Sábado chegou e, com ele, uma recém-desperta vontade de ver o mar, porque, ao entrar no meu escritório, encontrei uma lista de hotéis e pousadas em Caraguatatuba, que eu imprimira dias antes... Eu tinha um sonho antigo... Hospedar-me numa pousada que dá para uma certa praia...
Fevereiro de 1997. Naqueles tempos, tinha uma amiga muito, muito próxima, que me convidou para passar o Carnaval em Caraguá com ela, a mãe e o irmão (eles tinham uma casa no Centro de Caraguá). Porém, ela gostava de tomar banho de mar numa praia mais afastada e tranqüila. Ela pegava o carro e íamos até lá, estendíamos nas espreguiçadeiras e só almoçávamos às 16:00, 17:00 horas, refeição que ela chamava de "almojanta". Aquele Carnaval de 97 foi uma das minhas viagens mais caras, que eu relembraria com mais saudade e prazer, dessas viagens que dão certo desde o início. Ela passou na minha casa no meio da tarde de Sábado (lá pelas 15:30, 16:00 horas) e... Surpresa! Não encontramos trânsito na estrada, que parecia se estender só para nós. Fomos escutando MPB, que ela adora, ela pilotava o carro, eu ia trocando os CDs, e conversávamos muito, éramos românticas, sonhadoras, cheias de esperanças, mas também profissionais entusiasmadas durante o resto do tempo, auto-suficientes, não dependíamos de ninguém e estávamos construindo nossas vidas. Muito diferentes em certos aspectos, mas algo muito forte nos unia: uma amizade profunda e sincera, que já tinha resistido a uma prova há alguns anos atrás. E ali estávamos nós, dividindo aquele que seria um dos finais-de-semana mais felizes da minha vida, naquele ano incrível que foi 1997.
Minha amiga entrava na Tabatinga pela portaria do condomínio à beira-mar, deixava o carro no estacionamento, naquele tempo, não havia cancela nem portão, só uma guarita. Passávamos pela Pousada, ela me dizia, queria um dia me hospedar na Pousada Tabatinga. E imaginávamos o quanto custava, mas não perguntávamos. Numa manhã, ela contratou uma lancha que nos levou até uma ilha visível desde a praia. Mergulhamos, se pudéssemos, ficávamos por ali. Quando voltamos, ela me disse, estava um paraíso...
E estava mesmo, e eu me sentia completamente feliz, como se aqueles momentos e aquele lugar, juntos, fossem mágicos, embora eu não soubesse dizer porquê. Qual era a razão que faria uma mulher maior de 25, que conhecia o mar desde criança, encantar-se por aquele pedaço de espaço, naquele tempo?
Há em certas pessoas uma faculdade chamada intuição. Na maioria, é tão discreta que mal se manifesta. Em um número um pouco menor, é mais acentuada, mas sem que confira aos portadores poderes mais-que-terrenos. Em mim, ocorre uma estranha sensação de que algo (não sei o que) vai acontecer, logo (mas quando?). Era o que se passava comigo naqueles tempos.
2007. Resolvi, do nada, que iria a Caraguá e minha hora era aquela. Liguei para a pousada, a funcionária informou-me, temos quartos e está fazendo sol. "Irei", respondi. Peguei algumas mudas de roupa, o essencial, alguns CDs, entrei no carro e fui. Cheguei lá somente às 14:00 horas (eu não me levantei cedo no Sábado).
Agora, havia cancela e portões na portaria do condomínio dentro do qual situa-se a pousada, mas, ao finalmente entrar, emoção total. Tudo igual, o mesmo balcão de madeira à esquerda, a mesma disposição das espreguiçadeiras, a mesma tranqüilidade, porém com alegria. Fiquei até o final da tarde na praia. Depois, fui passear no Centro de Caraguá, revi a igreja, que eu não via há dez anos. Pensei, só falta ser de Santo Antônio! E era... Voltei quando a noite já tinha caído, 20:30, e, do meu carro, eu via a imensa lua cheia na estrada... Era uma lua de feiticeira!
Eram 22:30 e decidi ir olhar o mar. Grata surpresa, uma família, em torno de uma fogueira, improvisava um luau. Encontrei uma tenda aberta, com cadeiras, sentei-me e fiquei olhando aquela paisagem, pensando, hoje, quem sabe, eu poderia realizar um velho sonho... dormir na praia... e ali eu não precisava de mais nada.
Fui caminhando pela areia, onde as ondas chegavam. Fui me distanciando da pousada, mais, mais longe, a lua sempre comigo. Eram 23:30 quando retornei, com a certeza de que eu não tivera, em muitos anos, um final-de-semana como aquele.
No Domingo de manhã, sol, sol.
À tarde, dirigindo na estrada, uma palavra em minha mente: felicidade.
Felicidade.

Monday, January 29, 2007

Quando Fomos Incríveis

Há anos atrás, na TV Cultura, passava um seriado chamado "Anos Incríveis", que passei a assistir por sugestão do amigo Luiz, que, aliás, sempre foi ótimo conselheiro.
Kevin era o menino-protagonista que pensava alto para a teleaudiência e saía-se muito bem com suas sacadas. Sua idade? Não me lembro ao certo. Acho que o Kevin tinha entre 10 e 13. Assim, as tramas do seriado variavam de relação com pais, professores, colegas, namoradinha.
Anos incríveis. Outro dia, refletindo sobre a minha, as nossas vidas, essa expressão acudiu-me à mente.
Eu andava a cismar, o que farei de bom por mim neste ano que se inicia, além de trabalhar e cuidar de mim? O ano da diversão e arte tão somente já se foi, e novos conhecimentos, novas fronteiras convocam-me à expansão. Vou estudar Francês, para aprender a falar essa língua comme il faut? Volto a aprender Russo também? O Espanhol e o Italiano também me tentam. A pós que tentei ainda não foi desta vez, portanto, posso aproveitar o ano para me atualizar. Então me dei conta de que tenho andado, além de irresoluta, preguiçosa, devagar. E lembrei-me do final da minha infância e do começo da minha juventude.
Com onze anos, cismei que faria ginástica olímpica. Consegui cooptar a concordância de meu pai, que me matriculou no Sesi de minha cidade natal. O local era longe de casa, a rigor, eu teria que tomar dois ônibus para ir e dois para voltar. Mas não: eu andava do Sesi até o centro da cidade, e, de lá, tomava o ônibus para minha casa. Isso, durante dois anos, três vezes por semana. As tardes dos outros dois dias da semana eram dedicados a aulas de Inglês, idioma que estudei, sistematicamente, durante cinco anos.
Em 1982, meu pai decidiu que eu faria Francês e me matriculou num curso de Sábado. A princípio, achei muito cedo, mas daí, a coisa foi se tornando interessante. Porém, foi um curso mais curto, que durou dois anos.
Em 1986, não fiz cursos de línguas. Dediquei-me totalmente à preparação para o vestibular, acho que nunca estudei tanto na minha vida, pois queria entrar na USP. Consegui.
Nunca deixei de ser vaidosa, de me cuidar, de procurar ficar "gatinha". Nos finais de semana, a partir de 1984, eu saía com minha irmã e suas amigas, e vira-e-mexe "ficava" com alguém, dançava muito, toda noite de Sábado era uma aventura na qual tudo podia acontecer.
Esses foram meus anos incríveis.
Olho para trás, é o que posso dizer.
Eu era tão nova, uma garota, entrei na faculdade aos 17 anos, e já tinha realizado coisas que seriam fundamentais na minha vida adulta. Está bem, os cursos de línguas foram iniciativa do meu pai, mas eu não me contentei em tirar notinhas e passar; quis aprender. Meu Francês não é tudo isso, mas o Inglês é bom, dá para eu inclusive assistir peças, ler livros inteiros e me comunicar com nativos sem tropeços. Mas fazer ginástica olímpica e entrar na USP foram idéias minhas, que, aliás, a família não aprovava.
E, conversando com um amigo, cheguei à conclusão de que, para ele, sua juventude também correspondeu aos seus anos incríveis. Ele, nordestino genuíno da zona rural, aos 13 anos somente foi à escola. O ginásio, cursou supletivo. Contou-me que estudava tanto a ponto de dormir quatro, cinco horas por noite, escondido do seu pai, que exigia que ele dorimisse direito. Ele fez um curso por correspondência (!) e aprendeu bastante; daí, foi camelô, depois, entrou numa empresa do ramo que o interessava, e... prestou vestibulinho e entrou numa conceituada escola pública para cursar o segundo grau. Ao terminar esses estudos, prestou um concurso público e veio parar em São Paulo. O cargo dele? É bastante respeitável.
Enfim, quando somos bem jovens, somos pessoas comuns capazes de coisas incríveis. Quem já não se sentiu assim?
Por isso, faz sentido aquele velho ditado, "é de pequenino que se torce o pepino".
E as crianças e os jovens de hoje? O que será de seus Anos Incríveis?

Monday, January 08, 2007

Eu Amo Recife

Outubro de 2002. Decido, pela primeira vez na vida, comprar um pacote de Réveillon.
Antes, eu só saíra de Sampa para ficar na casa de familiares ou amigos.
Explico o que quero para a funcionária da operadora: cidade praiana, mas sem o auê de Porto Seguro. Peço um hotel com festa. Já estou interessada em Recife, que ela me recomenda.
Era o começo de uma paixão.
Este ano, lá fui eu de novo passar o Réveillon na capital do Leão do Norte.
Novamente, assaltou-me a vontade louca de prestar um concurso público federal e morar lá. Os recifenses recebem com carinho, a cidade respira arte, cultura e seus jornais deixam clara a paixão pela política. E a cor e a temperatura do mar...
Tudo deu certo: do vôo, que não partiu atrasado de Cumbica, à festa, na qual tive a sorte de ficar na mesa de uma baiana que também viajava só. Excelente companhia, mais moça do que eu, profissional das exatas. Após a festa, ela me levou para o mar, no qual entrou de roupa e tudo. Eu me limitei a molhar as canelas. Dançamos mais um pouco na calçada da praia.
No penúltimo dia, à tarde, visitei o Instituto Ricardo Brennand.
Esse homem teve um sonho: construir um castelo medieval que servisse de museu. Sem patrocínio (segundo informações que recebi de recifenses), ele levou a cabo seu projeto por sua conta e risco. O resultado lembra os sítios dos palácios europeus: uma longa via dá acesso à portaria do Instituto, composto das duas edificações estilo Tudor, lago e jardins. Nos jardins laterais, várias esculturas. No prédio à esquerda de quem ingressa, o museu voltado às artes plásticas, pinturas, esculturas, gravuras, e também museu de cera, loja e café; no prédio à direita, no castelo, armarias.
Enfim, o Instituto Ricardo Brennand é um lugar que convida ao sonho e ao conhecimento.
De Recife, já estou com saudades.