Monday, December 09, 2013

Maílson da Nóbrega: o Macho do Ano

Maílson da Nóbrega, economista,  tem uma coluna na revista VEJA.  Esta semana, no seu artigo, A porta de saída do Bolsa Família, há um parágrafo que tem que ser conhecido - e comentado:

"Uma das consequências positivas do programa é permitir às mães abandonar o mercado de trabalho e dedicar-se a seus filhos.  Elas recebem os pagamentos mensais e gerenciam as despesas familiares.  Assim, caiu a oferta de empregadas domésticas, o que é um bom sinal.  Erra quem pensa que isso é ruim.  O programa acelerou a transição natural observada em outros países,  nos quais o acesso à educação permitiu  às mulheres disputar melhores postos de trabalho, diminuindo o universo das que buscavam o emprego doméstico.  A menor oferta provocou o aumento dos respectivos salários."

Então para o doutor (doutor?  bem, talvez sim, talvez não, mas isto não tem lá importância para os fins deste post) Mailson as mães abandonarem o mercado de trabalho e dedicarem-se aos filhos é algo positivo.  Tão correto que o Estado deve pagar para isso acontecer.  Errado!  Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos da Constituição (art. 5º, I).  São iguais no direito ao trabalho e também nos direitos e obrigações em relação aos filhos (art. 5º, I, c/c art. 229, também da Constituição).

O que significa, na prática, a igualdade de direitos e deveres, entre mulheres e homens?  Fim dos papéis sociais atribuídos com base no sexo, ou dos chamados papéis estereotipados dos homens e mulheres (na linguagem da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, de 1979), como conducentes ou justificadores da distinção de direitos.  Esses papeis estereotipados têm sido danosos a ambos, homens e mulheres, pois são liberticidas:  dizem o que um homem deve ser ou fazer só porque é homem, e o que uma mulher deve ser ou fazer, só por ser mulher.  Isto, como visto, implode a liberdade de ambos e cria mitos, falsas crenças.  Uma dessas falsas crenças, é, justamente, a defendida pelo doutor Mailson:  de que é normal e desejável as mães abandonarem o mercado de trabalho para se dedicarem aos filhos.  Esse foi o maior desafio das mulheres, no mundo ocidental:  conquistar o direito ao trabalho para as mulheres que são mães.  Por isso, o discurso de Maílson da Nóbrega, mais do que obsoleto, soa como foguetório do velho machista sul-americano, que as palavras seguintes não conseguem desfazer.

Então o Estado tem que pagar pra mulher ficar em casa, cuidando dos filhos.  Tá certo.  Logo, deve pagar também pra ela cuidar do marido.  E eu quero ficar em casa cuidando de gatos e ganhar subsídio de Ministra do STJ pra isso.

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