Monday, July 31, 2006

Abaixo o Machismo!

O machismo contra-ataca. Eu já esperava por isso. Facilitamos.
Hoje, a "Folha - Ilustrada" publicou, na página E1, matéria de Sérgio Dávila, intitulada "Homem com H (e como sou!)", sobre o livro "Manliness" ("Masculinidade"?), de um tal de Harvey Mansfield, 74 anos, professor de Sociologia em Harvard. Ele defende que os homens são diferentes das mulheres, superiores a elas e deveriam se orgulhar disso. Ele se opõe ao desenvolvimento da sensibilidade e da vaidade nos homens, diz claramente "sou favorável ao machismo" e que as tradições deveriam ser respeitadas em casa (de papéis sexuais diferentes). Ele odeia o Feminismo.
Qual é o problema, Simone Andréa? É só mais um livro e, com todo o poder que hoje a mulher conquistou, as idéias desse cara não vão "pegar".
Ah, não? E quem me garante?
E que poder que hoje conquistamos?
A luta pela igualdade e liberdade da mulher só foi até a metade do caminho. Agora, precisamos retomá-la, irmos até o fim e NA VELOCIDADE DA LUZ! De lanças em punho. Eu prefiro ir com uma bazuca num cangote e uma metralha na outra mão.
O Feminismo tem que entender uma coisa: as mulheres têm direito absoluto ao desfrute da CONDIÇÃO HUMANA, têm direito absoluto de romper com a condição feminina em que vivem (subalterna e humilhante) e as diferenças anatômicas entre os sexos DE MODO ALGUM IMPLICAM EM DIFERENÇAS DE SONHOS, PLANOS, AMBIÇÕES E LIBERDADE!
As idéias do Harvey Mansfield são PERIGOSAS porque a nossa mídia dirigida por pessoas sexistas, comprometida apenas com o deus Mamon e mais nada, faz apologia do machismo impunemente, zombando da arte das mulheres, da sua política, do seu pensamento filosófico e científico. Vejam bem: não estou falando da matéria do Dávila. Ele nada mais fez do que informar um fato, a publicação, nos EUA, desse livro. E fê-lo com texto imparcial. Porém, assistam às novelas da Globo, com sua pregação de bom-mocismo para mulheres; leiam esses críticos de literatura e de cinema (quase sempre machos feios, sujos, sem talento e frustrados) depreciando arte produzida por mulheres. E a publicidade, então? Mais sexista e vulgar, impossível.
O Feminismo vem sofrendo ataques. Primeiro, foi a inglesa Alyson Wolf, cujas idéias já foram comentadas aqui.
O problema de muitas feministas é se deixar impressionar pela agressividade dos ataques que são feitos à nossa causa. Exemplo: "Vocês querem igualdade? Mas e as crianças?" As crianças são sempre o pretexto para atacar nossos direitos. Como se a mulher fosse a responsável suprema e natural, por "dever" divino, pelas crianças! Vão pastar todos os que pensam que somos!
Temos que declarar guerra TOTAL ao machismo e não fazermos nenhum acordo, nenhuma concessão aos nossos inimigos e inimigas (mulheres machistas e traidoras). Em primeiro lugar, temos que fazer uma reforma íntima, convencendo-nos de que somos seres humanos, tanto quanto os homens (parece que não é tão óbvio assim, afinal, os machistas acham que somos inferiores) e que NÃO ACEITAMOS nenhuma espécie de restrição à nossa liberdade ou de imposição baseadas no sexo. Temos que deixar de nos ACOVARDARMOS diante de vagabundos(as) que nos acusam de "descabeladas", "feias", "mal-amadas", "mulheres-machos", "inveja do pênis" e outras patifarias afins. Toda vez que um homem falar duro conosco, vamos partir para a retorsão imediata. Eles falam palavrão? Falemos piores. Guerra total.
Além disso, temos que ter CORAGEM de encarar uma VERDADE: O MACHISMO É TÃO NOJENTO, VULGAR, BURRO, HEDIONDO E BAIXO QUANTO O RACISMO. E TÃO INCONSTITUCIONAL QUANTO. Afinal, o art. 3., inc. IV, da Constituição, manda o Estado promober o bem de todos, sem discriminação de sexo; o art. 5., inc. XLI, da mesma Constituição, manda a lei punir as discriminações inconstitucionais. Discriminação por motivo de raça, etnia, procedência nacional, religião e idade são crimes; SÓ DISCRIMINAÇÃO POR MOTIVO DE SEXO NÃO É CRIME!!! É uma reles contravenção penal, capitulada numa lei que pouca gente conhece! Só os bons delegados de polícia! Defendo essa tese na Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo n. 51/52, em artigo de minha autoria.
Vamos, portanto, EXIGIR dos Deputados Federais em que votarmos que apresentem PROJETO DE LEI a fim de corrigir essa lacuna legal absurda!
Quanto mais machista, mais o homem (ou a mulher) se aproxima do macaco. Que o digam os primatologistas.

Monday, July 24, 2006

Elsa & Fred

Hoje, assisti Elsa & Fred à tarde. Sugestão da melhor amiga.
Primeira surpresa: formou-se uma fila para a entrada. A sala do cinema lotou, encontrei dois lugares na terceira fileira, uma simpática senhora respondeu à minha pergunta, "estão vagos, meu bem ". Sentei-me na na pontinha, e logo chegou outra moça que ocupou o lugar vago à minha esquerda. Gostei dela também, conversou um pouco comigo antes da fita e... como eu, ousou estar ali sem ninguém mais.
Tinha muitos jovens, mas o público majoritário, naquela sessão, era maior de 60. Segunda boa surpresa: público comportado. Não se ouviam conversas durante a exibição, e nenhuma das risadas (muitas) foi abusiva. Mas que repressora é essa Simone Andréa! Como pode uma risada ser abusiva?
E como pode! Sabem aquelas pessoas que riem muito alto, como se todo o espaço sonoro lhes pertencesse e como se realmente tivessem a intenção de agredir? Uma vez, no Teatro João Caetano, tinha um moço idiota desses atrás de mim. Tive que pedir pro cara rir mais baixo. Ele ficou quietinho.
A melhor surpresa de todas foi ver que o filme, que no Frei Caneca Unibanco tinha como concorrentes duas salas exibindo "Piratas do Caribe", como Johnny Depp, mais outro com o Johnny Depp, lotou a sala. Lotou porque é um filme bonito, apesar de o jornal que costumo ler classificá-lo apenas como "regular". Nem tudo está perdido: há mais românticos nesta hoje horrível Sampa do que eu supunha.
O Fred está viúvo e acaba de se mudar para um apartamento. Lá, ele tem a Elsa como vizinha. Um incidente os aproxima. A Elsa começa. É. Quem toma a iniciativa da conquista é ela.
Não conto o resto do filme. É romântico à moda antiga. Corram para o cinema mais próximo e... boa sessão.

Monday, July 17, 2006

Neopuritanismo e Neoliberalismo numa Sociedade Repressora

Abaixo a repressão! É proibido proibir!
Nos anos 70, essas eram as palavras de ordem dos rebeldes que foram a cara da década, principalmente de sua primeira metade. Dos anos 80 para cá, porém, os ventos da Era Reagan trouxeram não somente o neoliberalismo na política econômica, pois vieram acompanhados de uma retomada conservadora nos costumes e nas idéias dos formadores de opinião.
A Queda do Muro não salvou o mundo do escuro, como se previa. Derrubado o autoritarismo de "esquerda" no Leste Europeu, a "direita" fortaleceu-se como a opção política vencedora. Sem o bloco socialista, o mundo perdeu seu equilíbrio geopolítico e ideológico. Apesar de suas conhecidas falhas, o socialismo era inspirado nas idéias revolucionárias de Marx, Engels e Lênin. Eles não questionaram apenas o capitalismo tal qual se apresentava até o séc. XIX e início do séc. XX; questionaram, também, a condição feminina. Engels escreveu
A Origem da Família, no qual afirmou que a primeira divisão de trabalho da história foi entre homens e mulheres. Lênin inseriu a igualdade de sexos no bolchevismo, contrariando a tradição russa de submissão feminina. O pensamento de Marx, Engels e Lênin inspirou o socialismo do Leste Europeu, que se tornaria extremamente autoritário e repressor. Porém, inspirou também os partidos de esquerda e de centro-esquerda do Ocidente, a resistência às ditaduras da América do Sul, o fortalecimento dos direitos sociais. François Mitterand veio de um partido que se chamava socialista. E fez um grande governo, nada soviético e nada maoísta.
Vencedora, a direita aproveitou o fim do bloco socialista para disseminar o neoliberalismo como a única opção correta em política econômica. Francis Fukuyama chegou a escrever um livro no qual proclamava o "Fim da História".
Porém, o autoritarismo de direita reergueu-se. Nos Estados Unidos, com Reagan e Bush pai, a direita religiosa ganhou força. A AIDS serviu de pretexto para uma explosão conservadora. Se, de um lado, ingressamos na "Era dos Direitos", assistimos à globalização que aparentemente aproximava as pessoas, não assistimos ao que esperávamos: à conquista de maior liberdade. Deu-se o contrário: a expansão de novas idéias repressoras como se fossem a última palavra, a grande verdade.
O Neoliberalismo veio acompanhado do Neopuritanismo.
O que é Neopuritanismo?
É o retorno à uma sociedade em que a repressão é a regra e a liberdade, a exceção; uma sociedade intolerante com o "diferente" e que prega a uniformidade de idéias e de condutas como virtude. Ai de quem fugir dos padrões!
Assim, nos EUA, a intolerância com os fumantes levou-os à segregação social. O Brasil caminhou na mesma esteira, assim como a maior parte do mundo. Hoje, as pessoas não se contentam com espaços separados em locais fechados: há ditadores querendo proibir o fumo em locais... abertos! Na própria varanda ou sacada do fumante, se isso "incomodar" o vizinho. Isso é típico de uma sociedade intolerante, de pessoas mimadas e que vivem com medos exacerbados.
Hoje, apesar de as mulheres terem conquistado a igualdade nas leis, ainda convivem com muita repressão, proibições e violência, só por serem mulheres. A mulher tem que obedecer aos seguintes comandos: ser dócil, meiga, bonita, bunduda, peituda, magra, cheirosa, falar baixo; tem que ser ou querer ser mãe; tem que colocar os filhos acima de si mesma; tem que amamentar; tem que dar colo sempre que o filho chorar; tem que colocar o filho acima da carreira e da sua relação com o marido; tem que esperar ser escolhida, e não escolher, no campo da conquista afetiva; tem que ser feminina, não pode ser feminista que é feio; tem que tudo e não pode nada.
Os jovens são cada vez mais patrulhados. Os pais os monitoram pelo celular e não incentivam sua autonomia. Sob o pretexto do medo, não mais encorajam seus filhos de 10, 11 anos a irem e voltarem sozinhos da escola ou de qualquer lugar. Os políticos se preocupam se os jovens abaixo de 18 anos fumam ou bebem, na maior demagogia, quando deveriam se preocupar com o que realmente lhes faz mal: falta de escola pública decente (graças aos governos tucanos). A mídia irresponsável os empurra para o sexo cada vez mais cedo, sem que as famílias ou o poder público estejam preparados para isso. E tomem repressão! Quem são as maiores sacrificadas? As meninas! Ainda há pais que impõem o duplo padrão moral: o que o menino pode, a menina não pode.
É absurdo um menor de 18 anos não poder entrar num motel! Sexo não é crime, contravenção nem ilícito, quando se é menor de idade! Mais do que um direito, é um fato da vida! Assim, onde é que o jovem vai transar? No automóvel, no mato, no beco escuro.
O cidadão é tratado como se fosse bandido por definição. Em todos os lugares que vamos, somos obrigados a apresentar nossos documentos para um qualquer, que adquire, com isso, poderes de policial: pode vetar a nossa entrada num prédio privado, se estivermos sem documentos! Isso porque, segundo a lei brasileira, NINGUÉM ESTÁ OBRIGADO A ANDAR COM DOCUMENTOS! E somos fotografados e filmados!
A ideologia do bom-mocismo estragou as relações interpessoais. Acabou com a tolerância e com uma qualidade inerente à vida: o risco. E o bom-mocismo é uma ditadura que constrange homens e mulheres: é a ditadura da fidelidade, do voluntariado, da ecologia, do altruísmo, da "maturidade", da "seriedade", do "equilíbrio". O "Don Juan" não é mais um homem com o qual apenas temos que tomar um certo cuidado; ele é condenado por homens e mulheres. As pessoas têm que querer casar ou juntar e, se fizerem isso, serem "fiéis", custe o que custar. Mas e se surgir uma nova paixão, um novo amor?
Ah, o neopuritanismo condena a paixão e o amor! Acha-os imaturos e, lógico, inconvenientes. Tem psicólogos defendendo escolhas "frias", dizendo que o amor não é importante, mas sim a amizade e o companheirismo!
Prefiro dar total razão à minha mãe, que diz: "Se com amor já é difícil, imagine sem amor!"
Vão tomar banho esses porcos anti-românticos e repressores! Eles querem é convencer pessoas saudáveis de que elas têm problemas, patologias que têm que ser curadas! E ganhar dinheiro com isso!
Ai da pessoa que ousa amar um homem ou mulher comprometido! Certa vez, uma conhecida, apaixonada por um homem que morava junto com sua namorada (aliás uma vagaba que dependia economicamente dele), contou-me que foi criticada por uma amiga sua, nos seguintes termos: "ai, coitada da menina! Como é que você pode gostar de um cara que tem namorada? Você não pensa nela? E se você estivesse no lugar dela?"
Bem, essa conhecida nunca mais procurou a tal amiga, e fez muito bem. Ela não precisa de discurso repressor, de bom-mocismo hipócrita, calhorda e alienado: precisa de poesia. De arte. De RESPEITO. DE LIBERDADE.
Logo, vão querer enquadrar o álcool e o cigarro na Lei Antitóxicos; vão querer obrigar as pessoas a realizarem trabalho voluntário; vão proibir a manifestação de certas idéias; vão promover o retorno da censura; vão infernizar a vida dos gordos (não se atrevam! EU AMO os gordos!).
Está mais do que na hora de retomarmos a luta pela nossa liberdade.
Abaixo a repressão! É proibido proibir.

Monday, July 10, 2006

A Mulher do Tenente Francês

Sabem aqueles filmes de que ouvimos falar quando são lançados, mas não assistimos? Passa ano, entra ano, vemos o filme nas prateleiras das locadoras e não o alugamos. Pois bem. Neste final-de-semana, assisti ao filme que leva o nome desta postagem. Tem mais de vinte anos, é com a Meryl Streep e o Jeremy Irons.
Não vou contar a história. Limito-me a recomendá-lo a quem ainda não o assistiu.
E por quê?
O filme mostra como a sociedade julga a mulher que não obedece as regras confinantes que foram inventadas para encarcerá-la: ou é prostituta ou é louca. Para chegar a tanto, a mulher não precisa ser nenhuma Lucrécia Bórgia, Maria I, a Louca (há quem diga que a rainha portuguesa não era louca coisa nenhuma), rodar bolsinha nem falar sozinha pelas ruas. Basta que ela ouse amar, saia sozinha, contemple o mar e se recuse a ser como todos querem que ela seja: conveniente, cordata e sem luz própria.
Certa vez, um homem muito caro conversava comigo. Ao saber que eu fizera todas as minhas viagens para fora do país sozinha (tinham sido apenas três), ele comentou: "Ah, você é corajosa!" Esse homem foi uma das poucas pessoas que não me julgaram mal por eu ser como sou e fazer as coisas que eu faço, as quais acho bastante banais: sair sozinha quando não tenho companhia, viajar sozinha, escrever poemas (e publicá-los de vez em quando), fazer a corte ao homem amado.
E hoje à tarde, eu assistia à TVE do Rio de Janeiro, na casa de meus pais. Passava um programa que eu não conhecia, mas de cara amei: um programa de História da Arte, com a Irmã Wendy. Imaginem uma freira católica, entre 50 e 60 anos, com seu longo hábito negro falando dos Impressionistas, do Monet, do Renoir, e chegando ao Van Gogh! Pois a Irmã Wendy, além de dotada de profundos conhecimentos de História da Arte, é observadora sensível às obras de arte e às vidas dos artistas. Pensamos na Igreja Católica com seus dogmas, e não imaginamos que possa uma freira falar com tanta beleza e sem nenhum preconceito da arte e dos artistas. Pensamos na Igreja Católica e seu anti-feminismo, mas a Irmã Wendy nos falou das pintoras impressionistas também. O que mais me chamou a atenção foi a maneira respeitosa e caridosa com que ela falou de Van Gogh, cuja vida foi tão difícil a ponto de ele mesmo terminá-la. Uma coisa ela disse no decorrer do programa, não me lembro suas palavras exatas, mas a mensagem é a seguinte: quem de nós não tem seus desequilíbrios ou singularidades?
Bem, "A Mulher do Tenente Francês" é um filme que merece ser visto. Ele mostra, ainda, o quanto nossa sociedade é, na essência, parecida com a da Inglaterra vitoriana: repressora, cheia de regras sem sentido, vive de aparências e julgadora implacável, sobretudo das mulheres.